Falar da série "Gears of War" é falar de um bando de homens bombados metralhando e serrando monstrengos igualmente enormes e que ainda por cima saem debaixo da terra? Sim, é sim. Mas essa montanha de músculos e violência, de maneira sutil, sempre sussurrou uma ideia quase oposta de irmandade. De uma família forjada no calor da batalha, composta por indivíduos que foram arrancados de suas vidas convencionais e jogados numa guerra que, adivinha só, não era deles. Onde nada mais eram do que engrenagens.
O jogo mantém a carnificina deslavada que os fãs adoram, com combates ferozes, armas novas e inteligentes e mapas bem "old school", perfeitos para o enfrentamento de perto, tenso, sem papas na língua. Mas, se ele prova algo, é que dá para escrever uma história madura sem abdicar da testosterona. Em "Gears 4", os brutos também amam.E em "Gears of War 4", primeiro game original da série para Xbox One e Windows 10, o que dá para falar é que esse lado "broderagem" ganhou ainda mais importância e significado.
Que noite terrível para se ter uma maldição
"Gears of War 4" acontece 25 anos depois do final de "Gears 3" (2011). A guerra contra a raça de monstros "Locusts" acabou e o mundo de Sera vive um período de reconstrução. Até que, obviamente, surge um novo problema para fazer você tirar sua metralhadora com motosserra de dentro do armário.
"Gears of War 4" acontece 25 anos depois do final de "Gears 3" (2011). A guerra contra a raça de monstros "Locusts" acabou e o mundo de Sera vive um período de reconstrução. Até que, obviamente, surge um novo problema para fazer você tirar sua metralhadora com motosserra de dentro do armário.
É claro do começo ao fim do jogo, que se passa em um período de 24 horas, que esse tempo de paz ajudou a oxigenar os ambientes e protagonistas de "Gears 4". O fim da ameaça permanente dos "Locusts" floresceu vida e cores em Sera, aliviando o peso das paisagens cinzentas e decrépitas da guerra. O devastado ainda está lá, mas agora combinado à uma paleta de esperança que pinta esse novo mundo meio feudal, meio futurístico.
O sopro de humanidade também se reflete em JD Fenix (filho de Marcus Fenix, herói da trilogia original) e seus companheiros Kait Diaz e Del Walker, o novo trio de heróis que não chega a ser sofisticado, mas que tem uma aventura muito mais emocional e pessoal do que seus antecessores. A jornada de JD, por exemplo, é desenvolvida a partir da relação tempestuosa com o pai e os ideais desse novo mundo. Já Kait viu a mãe sendo raptada e carrega uma sensação de impotência até o final do game. E Del… bom, Del é um alívio cômico mediano. Ele tem momentos divertidos, mas seu plano de fundo e a amizade com JD são pouco explorados. Merecia mais.
Há outras derrapadas, como a explicação por trás dos novos monstros, os "Swarm", que é bem mais ou menos. Quando eles aparecem pela primeira vez não tem como não pensar que agora a p**** ficou séria. Porém, passa rápido graças à menor variedade de inimigos e o look similar ao dos "Locusts". E os robôs DeeBees, a outra nova ameaça, até trazem um sabor diferente para o início do jogo. No entanto, ele acaba se dispersando por conta da assepsia exagerada dos humanóides.
Mas, no geral, a trama de "Gears of War 4" é tratada com maior atenção do que nos games anteriores, o que acima de tudo faz com que essa seja uma história sobre pessoas, e não sobre uma guerra. Os diálogos são espertos, assim como os momentos de humor e de não se levar tão a sério – e fica aqui um salve especial para as cenas em que a primeira-ministra Jinn, a tirana do jogo, vive momentos dignos de Kenny, do desenho animado "South Park".
"Gears 4" tem uma história madura e modernizada, que vai além do bando de coroas musculosos entrincheirados de antes e acompanha a formação de caráter dos seus soldados. E mesmo assim consegue trazer algumas das grandes sequências de ação de toda a série. As áreas de tiroteio não são tão amplas quanto em "Gears 3", mas distribuem bem os obstáculos e incentivam o bom posicionamento dos jogadores para flanquear os inimigos. E as lutas contra chefes e cenas como a da foto acima, em que você comanda DeeBees gigantes, são empolgantes e dão uma chacoalhada no ritmo do jogo.
Até a última sepultura se esvaziar
Não é só no roteiro que esse argumento "Band of Brothers" se manifesta. O modo Horda, que coloca os jogadores contra ondas de monstros cada vez mais fortes, agora tem classes de personagens, cada qual com habilidades únicas. Algumas funcionam muito bem, como o engenheiro, que constrói itens de defesa com rapidez e é capaz de repará-los; e o batedor, que sempre coleta o dobro de energia. Outras são mais genéricas, como o soldado e o franco-atirador. Mas a ideia é uma só: mais do que nunca todos têm seu papel nesse barco chamado trabalho em equipe.
Não é só no roteiro que esse argumento "Band of Brothers" se manifesta. O modo Horda, que coloca os jogadores contra ondas de monstros cada vez mais fortes, agora tem classes de personagens, cada qual com habilidades únicas. Algumas funcionam muito bem, como o engenheiro, que constrói itens de defesa com rapidez e é capaz de repará-los; e o batedor, que sempre coleta o dobro de energia. Outras são mais genéricas, como o soldado e o franco-atirador. Mas a ideia é uma só: mais do que nunca todos têm seu papel nesse barco chamado trabalho em equipe.
Essa exigência por cooperação ganha outro nível com a inclusão do forjador, uma caixa da onde os jogadores compram novas armas e equipamentos para se defender da horda de monstros. Ao contrário das versões anteriores, agora é possível posicionar os itens de defesa em qualquer lugar do mapa e deslocar o forjador para atender uma nova estratégia. E o que é importante nisso tudo? Sim, ela, a comunicação.
A obsessão de "Gears 4" por essa vocação para irmandade também se reflete em seu lado competitivo. O game tem alguns novos modos de jogo, entre eles o "dodgeball" – que já falamos mais aqui – e o "escalation", desenhado para os eSports. Em ambos, o desempenho para o time é essencial. E no segundo, principalmente, a coordenação de estratégias, já que é possível alterar o ponto de renascimento das armas do mapa. Se vai pegar ainda não sabemos. Mas a promessa é que "escalation" seja empolgante de assistir e de jogar.
Raízes sangrentas
"Gears of War 4" apresenta seu universo ao público de uma nova plataforma de maneira conservadora, mas isso não é necessariamente ruim. A campanha retoma o horror e o suspense do primeiro jogo e atende a exigência do público por histórias mais bem desenvolvidas. O modo Horda, o xodó de quem joga com os amigos, tem novidades relevantes. E o ambiente multiplayer, que faz muito sucesso desde 2006, também ganhou mudanças e uma merecida estrutura para atender a demanda dos esportes eletrônicos.
"Gears of War 4" apresenta seu universo ao público de uma nova plataforma de maneira conservadora, mas isso não é necessariamente ruim. A campanha retoma o horror e o suspense do primeiro jogo e atende a exigência do público por histórias mais bem desenvolvidas. O modo Horda, o xodó de quem joga com os amigos, tem novidades relevantes. E o ambiente multiplayer, que faz muito sucesso desde 2006, também ganhou mudanças e uma merecida estrutura para atender a demanda dos esportes eletrônicos.
"Gears 4" continua sendo o mesmo "Gears" de 10 anos atrás? Essencialmente sim. Mas essa é a prova de que estamos diante de uma fundação extremamente sólida e influente, mascarada pelos machos-alfa estampados na sua capa. "Gears of War 4" é o pacote completo com o melhor que a série de ação e tiro ofereceu nos últimos anos, seja você novato ou veterano.
Ao contrário de "Uncharted 4: A Thief's End", título do PS4 que mais rivaliza com o seu papel, "Gears 4" não quer escrever uma conclusão. Marcus passa o bastão da aventura para JD, ou como Rod Fergusson disse em entrevista ao G1, "abençoa seu filho como um herói", e uma nova trilogia está por vir. É o episódio 4 de "Gears of War" que irá tentar despertar a sua força.
Fonte:http://g1.globo.com/tecnologia/games/noticia/2016/10/com-historia-madura-gears-war-4-prova-que-os-brutos-tambem-amam.html








